Histórias Para o Rei


Era tarde da noite quando Selenzhi voltava para a aldeia onde vivia com sua mãe e sua irmã mais nova. Até mesmo a lua sentia uma ponta de inveja de certa forma da moça que tinha os cabelos negros como as noites sem a presença do astro, pele alva de grande encantamento que deixava todos admirados. O susto foi grande quando ela ouviu cavalos se aproximarem rapidamente, só houve tempo para ela se esconder atrás de uma grande árvore, pois adivinhou do que se tratava, o rei provavelmente dera novas ordens para aqueles homens que pareciam ávidos por cumpri-las.
– Para lá, senhores! para lá! – Gritava um homem, em trajes que o classificava como sendo alguém muito importante do Reino, enquanto os soldados seguiam na direção indicada.
Em alguns instantes, todos aqueles soldados que compunham o exército do rei sumiram no horizonte e Selenzhi pode sair do seu esconderijo.
– Estão seguindo para a aldeia do Sul, com certeza acontecerá o pior! – Disse ela temerosa. Ela olhava para a lua que ajudava na iluminação do caminho e depois para o próprio caminho na dúvida de segui-lo ou não. Ela era sabedora do que ocorreria em seguida, então se pôs a chorar enquanto pensava em sua irmã e em sua mãe que estavam na aldeia para onde aqueles guardas seguiam sedentos por cumprir o que rei Noren exigia em certos tempos.


Selenzhi estava aflita, suas mãos tremiam , o susto foi grande, mas mesmo assim ela decidiu por continuar caminhando, mas agora em direção ao Castelo, sentia que as horas já se passavam rapidamente. O que Selenzhi mais queria naquele momento era salvar sua irmã mais nova. Os guardas, sempre atentos ao que ocorria em volta do castelo, a avistaram-na de longe e a detiveram, levando-a até o rei.
Noren estava caminhando para seus aposentos quando avistou no corredor aquela bela jovem que os guardas carregavam com certa brutalidade.
– Vossa Majestade, pegamos essa suspeita rondando o Castelo! – Disse o chefe da guarda.
– O que temos aqui?! o que pretendia fazer por essas partes, bela moça? – Noren perguntou levantando o rosto de Selenzhi com suas mãos.
– Certamente iria tentar assassiná-lo, meu rei! – Malerk cogitou.
– Cale-se Malerk! – Exclamou o rei com seu tom autoritário. – Perguntei à bela moça e não a você.
– Não tenho nada a esconder e se fosse matá-lo, eu o já teria feito! Vim aqui somente para resgatar minha irmã Malani! Sou Selenzhi, da aldeia do sul.
– Por qual razão você acha que o rei a libertaria, tola mulher? – Indagou Malerk com um sorriso tenebroso.
– Já disse pra ficar calado! O rei aqui sou eu. – Bradou Noren enquanto olhava para o rosto de seu chefe da guarda.
– Perdão,  Majestade! – Marlek se ajoelhou aos pés de Noren.
– Está perdoado, mas agora saía da minha frente! – Vociferou antes de voltar seu olhar para a jovem. – E quanto a você, Selenzhi, terá que ficar aqui para que eu liberte Malani. – Diz com um breve sorriso.
Selenzhi se perdeu em pensamentos, e em meio a tudo isso, decidiu que era o melhor a ser feito visando não só o bem de sua irmã, mas de outras moças das aldeias que compunham o Reino de Zarta.
– Eu aceito, mas solte minha irmã imediatamente. – Disse, confiante do que pretendia fazer.
– Assim será feito, bela mulher! – Disse Noren enquanto caminhava até ela com um enigmático sorriso.


Malani foi libertada por Noren, e Selenzhi ficou em seu lugar para tentar salvar todas as mulheres de sua e de outras aldeias. Os dias que se passaram foram tenebrosos para ela, pois ficou trancafiada num quarto gigantesco só esperando a hora que fosse levada ao Rei novamente.
Uma semana depois, Salazar, o conselheiro pessoal do rei foi até o quarto de Selenzhi e a moça estranhou a bondade que existia naquele homem, pois ela não notou aquilo nos outros servos do rei Noren.
– Você carrega consigo uma grande missão! Eu e todos nós acreditamos na sua capacidade de convencer o Rei, de fazer com que Noren volte a confiar nas mulheres. – Disse Salazar segurando nas mãos dela.
– Mas como, senhor? – Questionou, ainda mantendo a esperança de fazer um pouco mais.
– No momento certo, Selenzhi saberá! Agora vamos, pois o rei nos espera. – Disse enquanto seguia para a porta. Selenzhi o acompanhou com o coração cheio de receio.
Antes de entrarem no salão, Salazar tornou a dizer.
– Confiamos em você! – Exclamou ao lançar seu olhar esperançoso.
Noren ao ver Selenzhi ficou perplexo com tanta beleza, mas aquilo não seria necessário para que seu coração amolecesse. A noite de festa no Palácio era vista de longe por quem vivia nas aldeias e lá no castelo, a jovem moça corajosa dançava com o Rei que naquele momento não se mostrava uma pedra como outrora fazia questão de mostrar.
O fim da festa iniciava a apavorante angústia de Selenzhi que não sabia o que iria acontecer. Uma serva, de nome Balhani levou ela para os aposentos do rei, onde Selenzhi ficou a pensar no que faria para se manter viva, pois ela sabia o possível destino, era conhecedora dos finais das mulheres que dormiam com o rei.


O medo da jovem se multiplicou quando os guardas abriram a porta anunciando o rei Noren. Ele percebeu o nervosismo de Selenzhi e chegando mais perto da moça ele a contemplou, e com certa cautela se sentou ao lado dela.
– Não irei machucá-la, Selenzhi! – Disse com um tom sereno, diferente.
Aquela frase não caiu na acreditação da moça, pois ela sabia o que aconteceria na manhã seguinte, então depois de pensar muito, Selenzhi atreveu a falar com o rei. As palavras saíram como uma faca cortante, pois o preço por ser atrevida poderia ser muito caro.
– Posso lhe contar uma história, meu rei ? – Perguntou, realmente temerosa, com a voz falha.
– Como? – Noren pareceu não ter entendido, pois ficou alguns segundos observando a moça ao seu lado, talvez pensando em sua ousadia.
– Uma história, senhor. Posso lhe contar uma história? – Selenzhi repetiu com medo de serem suas últimas palavras.
Noren a olhou de soslaio mas com admiração pelo atrevimento que ela teve.
Selenzhi estava tremendo, pois agora temia por sua vida se ousasse algo a mais.
– Diz-me, o que deseja com sua história? – Perguntou Noren, curioso.
– Simplesmente lhe contar, meu rei. – Respondeu ela, cabisbaixa.
– Mas terá que contá-la depois que tudo estiver terminado! – Disse o rei.
A jovem moça concordou com o que Noren disse e ela se deitou na cama que se encontrava já imaginando o que iria ocorrer. Rei Noren despiu Selenzhi cuidadosamente, sentindo o cheiro adocicado que a pele da jovem exalava, sua boca percorreu todo o lado esquerdo do pescoço dela até chegar a boca que se manteve fechada, pois sua dona não sabia como beijar.
A lua brilhava intensamente e o vento soprou do sul trazendo uma brisa gelada que arrepiou o corpo de Selenzhi que agora deitada sem jeito na cama, esperava.
A noite já era vó quando Noren despertou parecendo curioso com a história que aquela mulher lhe queria contar. Selenzhi o olhava de forma tímida e ele percebeu a angelicalidade da moça, porém não se deixava amolecer por mulher alguma.
– Conte-me a história, Selenzhi! – Disse Noren recostado na cama.
Era chegada a hora de iniciar uma bela história. Selenzhi bastante confiante iniciou com uma história que ouvia de sua mãe quando era pequena e que encantava a todos. Noren não se encantou no início, parecia que algo o incomodava naquela história, mas deixou-se ouvir e assim se sucedeu. A jovem moça tentava reproduzir para ele os mais profundos detalhes.
O dia chegava sorrateiramente quando Selenzhi terminou uma terceira história. Noren estava encantado e visivelmente cansado que se esqueceu de ordenar a execução de Selenzhi assim que o dia amanheceu. A moça agradeceu por estar recebendo mais um dia em sua vida e se pôs a repousar também, pois estava cansada.
Outra noite se iniciou, e Selenzhi despertou antes mesmo de seu rei. Quando Noren acordou, ordenou que trouxessem o seu jantar até seus aposentos reais, parecia diferente. Os pensamentos do Rei se reportavam as histórias de Selenzhi que eram ricas e fascinantes, e logo que terminou seu jantar, olhando para Selenzhi, disse:
– Quero que conte-me outra história, Selenzhi!
– Sim, quando quiser, meu rei.
Noren saiu do quarto por um breve instante para deixar o executador preparado pela manhã. O coração frio do Rei não havia sido destronado ainda, mas parecia que a pedra estava começando a derreter.
No dia seguinte, aconteceu o mesmo que na noite anterior, as histórias que Selenzhi contava, deixava Noren ávido por mais a cada noite, e assim se passaram muitas noites de histórias com aventuras, romances, contadas com todos os detalhes possíveis. A jovem que agora se tornava uma adulta belíssima, se mantinha viva.
Malerk, o chefe da guarda real achava aquilo estranho demais, pois desde que assumiu a guarda do rei, todas as mulheres eram mortas assim que o dia amanhecia e com Selenzhi aquilo não estava acontecendo.
– Soldados, creio que de alguma forma ficaremos livres dessa maldição que se instalou aqui desde que o Rei foi traído por sua esposa! – Disse Malerk com um sorriso, deixando todos os mais próximos admirados já que era algo quase impossível de se ver.
– Qual o motivo de você possuir tanta certeza nessas suas palavras? – Perguntou Narin, um soldado.
– Está cego, Narin? Não vê que Selenzhi ainda não foi morta e já se passaram vários meses ? algo mudou o rei.
Todos concordaram com o ponto de vista de Marlek, que por sua vez disse antes de sair do recinto onde se encontrava.
– Seja o que for que esteja acontecendo, ela está salvando a todos!

Noites e mais noites se passavam, e Noren ouvia as histórias de Selenzhi com muita atenção, parecia hipnotizado de muitas maneiras pela voz, pelo modo como ela as contava, tinha muita emoção no desenrolar e isso o encantava.
Chegou uma determinada noite em que Selenzhi acordou novamente primeiro que o rei, os olhos dela miraram o grande espelho que estava a sua frente, ela se sentia diferente, e constatou essa diferença quando olhou para o espelho e viu que estava mais amadurecida, e viu isto também em Noren que se mexia na cama chegando a acordar.
Os olhos do rei fitaram os de Selenzhi que de imediato se aproximou dele.
– Qual o seu desejo, meu rei? – Perguntou abrindo um sorriso.
– Conte-me mais uma de suas histórias. – Ele pediu enquanto se ajeitava na cama.
A feição daquela mulher mudou, agora era preocupação pelo que poderia acontecer, pelo que ela iria dizer. Seus olhos percorriam todo o quarto parando diante dos olhos de Noren que aguardava ansioso por mais uma história daquela bela mulher.
Selenzhi não tinha mais histórias para contar naquele momento e temeu por sua vida, mas então decidiu por começou a contar sua história, toda ela sem deixar nenhum detalhe a faltar. Seus olhos se enchiam de lágrimas quando lembrava da infância brincando pela aldeia que ficava aos pés do castelo, e a parte final de sua história veio no amanhecer que como sempre era belíssimo, os raios de sol invadiram silenciosamente todo aquele quarto.
– … se passaram várias noites até que a jovem se tornou escassa de histórias, mas nesse tempo que passou, tudo aconteceu, muita coisa aconteceu…
– Mas como na história, no final de tudo, o que houve com a jovem, o rei fez aquilo que sempre fazia? – Noren estava curioso.
Selenzhi o beijou devagar, despertando o rei para algo que era contado, mas que se fazia verdade, uma história real dela própria. Ela se levantou da cama e ao chegar na porta a abriu, e no quarto entrou um garoto aparentando ser o mais velho dos outros dois seguintes que também entraram, e se puseram em frente a Selenzhi.
Os olhos de Noren se encheram de lágrimas, assim como seu coração que se encheu de amor ao ver que aqueles eram seus filhos, filhos de daquelas diversas noites, filhos esses que nasceram e cresceram durante o tempo em que Selenzhi lutava por sua vida ao contar histórias para seu rei e esposo. Noren seguiu até Selenzhi e a beijou em meio ao abraço que também lhe deu, e abraçado aos pais, estavam Melkerin, Norrin e Falur.

Fim

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