Linha do Tempo: Memória Inicial


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As memórias falham com uma constância absurda, porém não impede totalmente de me lembrar dos acontecimentos, que mesmo sendo supérfluos para alguns, para mim, eram lembranças de grande importância. A linha do meu tempo parece ter vida própria e me arrasta pelas ruas de memórias, me jogando no próximo acontecimento a ser contado, olho para ela, que sorri e parte enquanto me deixa deitado sobre os meus pensamentos.
Eu não me reconhecia naqueles trajes, estavam todos ao meu redor bem vestidos e clamavam pela chegada já programada do rei, que parecia ser bem querido por seus súditos. Não sei o motivo por estar vestido com uma longa capa preta acompanhada de um capuz, mas mesmo assim eu não os tirava. Quando o rei começou a aparecer, montado em seu cavalo, uma multidão começou a se mexer e a medida que faziam isso, me deixavam cada vez mais perto de onde o rei passaria, então minhas mãos começaram a suar. Assim que o rei estava passando próximo do lugar em que foi colocado contra minha vontade, ele parou o cavalo, por fim o desfile também parou, olhou para onde eu estava e abriu um pequeno sorriso, sorriso enigmático, logo ele fez sinal com o dedo e um dos guardas que acompanhava a alteza de perto, se aproximou, o rei então balbuciou algumas palavras, a multidão também parecia curiosa. O mesmo guarda veio em minha direção, mas depois não lembro de muita coisa, pois meus sentidos faleceram.
Meus sentidos ressuscitaram e eu já estava de frente para o trono do rei, que me olhava normalmente, assim que ele se levantou, meu coração então gelou com medo do seu próximo passo.
– Quero que faças uma coisa por mim. – Disse ele ao ficar muito próximo. – Sei que para você não é algo muito difícil, e conhecendo a fama de seu pai, acredito que você também tenha o mesmo que ele possuía. – Acrescentou abrindo um sorriso amigável.
A porta do salão principal então se abriu e uma luz magnífica parece ter invadido todo aquele ambiente, uma presença inesquecível que fez meu coração disparar no primeiro instante. O rei me deixou alí, estático, e foi ter com tal pessoa que me deixou alucinado, demasiadamente fora de mim. Logo a pessoa saiu e eu continuei olhando para ela até que a porta se fechasse. O rei voltou a se aproximar de mim e sorriu mais uma vez parece que adivinhando meus pensamentos que eu guardava no mais profundo lugar da mente. Não esperei ele dizer mais nada, simplesmente me dirigi ao local onde ficava a pena, o tinteiro e o papel, me sentei na cadeira de madeira feita da mais nobre árvore e pus a ser eu mesmi mais uma vez, logo me vi sem o capuz e me inclinei sobre o papel amarelado, o rei mantinha seus olhos em mim.

Do perigo ao abismo viciante
Do calor incessante ao frio congelante
Tudo começou no abrir de portas
Tudo teve início no meu mudar de rotas
Acreditei que nunca mais encontraria
Acreditei que para mim, já se extinguiu a luz do dia.
Vejas o quanto a vida nos surpreende
Vejas o quanto de vida a gente ainda não entende
Tenhas a certeza de que outra vez vou encontrar o que preciso ter
Tenhas a certeza que novamente vou encontrar o caminho até você.
Queres o meu querer
Assim como quero o seu querer.

Voar em cima das palavras é inexplicavelmente prazeroso, porém e doloroso quando temos de aterrissar. Eu aterrissei em campos mimados e assim me vi sendo enganado pela sutileza e malícia do rei, que pegou o que eu havia escrito em mãos e mudou a expressão de seu rosto.
– Você não tem o mesmo que seu pai tem. – Afirmou sem sorrir. Eu tinha esperança se que ele começasse a sorrir naquele momento, mas isso não aconteceu.
Com um gesto apenas, me vi sendo levado para as masmorras e lá jogado em uma cela sobre os risos de deboche dos guardas fiéis ao rei, então me encolhi em um canto aconchegante e comecei a pensar, em vista de que teria muito tempo para isso. Percebi que já era noite assim que olhei pela pequena janela com muita dificuldade, de repente ouvi passos rápidos vindo na direção de onde eu estava, voltei para o meu lugar. Logo reconheci o perfume que sobressaía entre todos os outros cheiros que pairavam por alí. Suas mãos brancas seguraram a grade da cela, seu sorriso iluminou um pouco daquele lugar, não disse nada, apenas jogou uma chave ao meu lado, depois retirou dentre a capa que usava, um papel, então começou a ler as palavras que um dia me pertenceram, que um dia estiveram apenas no meu pensar. Com um gesto pediu que me aproximasse, então fiz sem temer sua pessoa.
– Fica para mim, fica em meu coração. – Disse com a boca próxima de meu ouvido. Sorriu, deu meia volta e seguiu para fora da masmorra.
Poucas palavras, mas necessárias que me deixaram com um sorriso adocicado. Eu sabia, sem saber como, que logo nossos olhos se encontrariam novamente, pois esse havia sido apenas o começo, o início do caminho. Peguei a chave jogada, então abri a cela, consegui sair daquele lugar que não só queria prender meu corpo, mas também a minha mente. Uma chuva caia fina, então segui sob ela para um horizonte que pudesse me acolher.

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