Contador de Estrelas: Capítulo 3 – Querido Amigo


Ivo continua com seu olhar desviado do meu, o silêncio que se instalara desde que fiz a pergunta me deixa nervoso, bastante apreensivo. Coloco a luneta no bolso novamente e fico a pensar se deveria ter perguntado o que perguntei, afinal ele não deveria estar preparado ainda. Dos meus olhos começam a escorrer lágrimas de arrependimento por ter sido tolo em tocar no campo minado que nós dois construímos durante boa parte da adolescência.
– Desculpa ter tocado nesse assunto, não queria deixá-lo triste. – Peço enquanto me levanto do seu lado e começo a caminhar de volta para a casa. Olho para trás e visualizo ele pensativo, ainda do mesmo jeito após eu ter perguntado. – O que estou fazendo aqui? – Me pergunto enquanto deixo de olhar para trás. Enxugo as lágrimas que insistem em brincar com meus olhos e sigo em direção a casa, um pouco frustrado talvez.
Dessa vez quem irá observar as estrelas não sou eu. No quarto onde fui instalado, debruço sobre o parapeito da janela e não olho para as estrelas que parecem ter perdido todo o brilho, mas a verdade sou eu quem fechou os olhos. De repente me assusto com a porta do quarto batendo, então me viro e vejo Ivo próximo da porta com uma certa expressão indecifrável. Ele se aproxima de onde estou a passos lentos que só aumentam ainda mais toda minha apreensão.
– Eu me lembro, sim, Bernardo. – Afirma com sua resposta um tanto tardia. – Não haveria como esquecer de tudo em que estivemos mergulhados, das coisas que descobrimos juntos. – Ivo continua enquanto se aproxima um pouco mais de mim, que já estou imóvel sem nenhuma reação. – Não quero que você pense qualquer coisa, não estou chateado por você ter me perguntado, só pensei que você tivesse esquecido. – Conclui depois de me acolher no seu abraço caloroso.
De fato ele parece se lembrar mesmo, assim como eu que sempre resolvo visitar as descobertas da adolescência por meio de minhas memórias. Enquanto Ivo me abraça, permito que minha mente deixe a terra e passe a vagar pelo mundo de estrelas, conto todas, ou pelo menos tento, com tamanha felicidade que extravasa o coração. Percorro o espaço onde elas ficam alojadas e em cada uma vejo a esperança presente. Aperto o abraço, deixo ele mais próximo de mim, tanto que é possível sentir o pulsar de seu coração, assim como ele deve sentir o pulsar do meu.
– Você consegue sentir o mesmo? – Pergunto com a boca próxima de seu ouvido. Ele parece se arrepiar, isso é notório mesmo somente na penumbra.
– Nunca deixei de sentir. – Responde, e com certeza abre um sorriso, pois não sei como, mas ele sorri. Tão perto de mim, tão próximo de meus desejos, em frente ao meu concreto sentimento que há tempos ganhou uma forma.
Quando o sol começa a nascer, desperto, não por seus raios terem tocado meus olhos, mas por já estar acostumado ao levantar cedo, às vezes nem levantava, pois passava a noite acordado vigiando todo o perigo que rodeava. Toco meus pés nus no piso de madeira e sinto um frio tomar conta deles, logo procuro minhas meias e as coloco pelo menos para amenizar aquele frio, então me deparo com um bilhete em cima da escrivaninha, o pego e leio, logo abro um sorriso gigante, parece que voltei a gostar do sol em minha vida. Antes, a noite era minha fiel companheira, eu achava tudo mais bonito, mais encantador, vivia para ela e com ela. Depois de fazer o que era necessário, saio do quarto e vou em direção a cozinha, e assim que avisto as horas no grande relógio de madeira que fica no corredor, percebo que realmente levantei cedo. Quando me aproximo da janela da cozinha, um galo sobe no parapeito e começa a cantar, eu, um pouco assustado inicialmente, começo a rir sozinho, paro somente quando ouço a voz grave do pai de Ivo.
– Já acordou, rapaz? – Marc pergunta. – Aconteceu alguma coisa? – Ele continua enquanto me viro e fico de frente para ele.
– Eu acordava sempre cedo, senhor Marc. – Respondi. – Parece que o relógio do corpo sabe o momento certo de despertar para um novo dia.
Marc sorri e segue para perto do fogão. Ele para e olha para mim com o mesmo sorriso.
– Bom, diga isso ao meu filho, pois parece que o relógio dele veio com defeito, muito defeito. – Marc diz, sorridente.
– Ele está dormindo ainda? – Pergunto com grande curiosidade. Realmente eu e Ivo havíamos ficado um bom tempo longe desde que me mudei de cidade junto de meus pais.
– Acredito que só acorda depois das oito da manhã, ele ficou preguiçoso, muito preguiçoso. – Responde ainda sorridente, mas logo ele se vira e segue para perto da pia me deixando com meus pensamentos, mas desperto rapidamente assim que ouço novamente a voz de Marc. – Se quiser acordar ele, pode ir, já está na hora dele voltar a acordar cedo novamente. – Ele diz enquanto enche uma chaleira com água.
Não sei o motivo de ter aceitado tal sugestão, mas me vi na frente da porta do quarto de Ivo, então toco a maçaneta e abro. A janela fechada com a cortina deixa o quarto escuro, mas logo me acostumo, melhor, minha visão se acostuma, então vejo a cama dele e ele deitado sobre ela. Sigo até a janela e abro a cortina, olho para a cama e Ivo se mexe, parece incomodado com o ato, eu abro um sorriso assim que vejo seu olho se abrir.
– Bernardo! – Diz não parecendo nem um pouco incomodado com o fato de eu tê-lo acordado. – Como você está? – Me pergunta antes de bocejar.
– Estou bem, Ivo. – Respondo chegando próximo da cama dele. Tomo a liberdade de me sentar enquanto ele sorri de maneira farta. – O que houve? – Pergunto um tanto intrigado.
– A gente deveria ter feito aquilo antes, não sei como consegui esperar tanto tempo, não sei como estou vivo sem ter vivido aquilo. Eu achei que tudo não passou de imaginação ou sonho, mas não foi. – Responde enquanto me olha com ternura.
Meus olhos se perdem no olhar acolhedor que se instala no meu fronte, seu sorriso deixa tudo mais convidativo para uma viagem que poderia ser somente de ida, o que importa a volta? Caminho pela estrada de realizações sem olhar para trás, mas sou obrigado a parar ao sentir meus lábios em outros lábios e retorno para a realidade obrigatória. Assim que ouvimos a maçaneta da porta sendo mexida, nos afastamos, ele sorri para mim como se dissesse que está tudo bem, meus olhos correm aflitos para a porta que se abre.
Tomamos nosso café de forma alegre, a conversa flui bem, e às vezes eu olho para Ivo e depois para o pai dele com um certo receio. Ivo parece perceber o meu temor e se mantêm com seu sorriso acolhedor que diz absolutamente tudo. Marc sai da mesa dizendo que precisa ir até a fazenda vizinha, o sorriso de Ivo desaparece, parece haver algo sério.
– Não vá, pai, é perigoso. – Ivo pede visivelmente com medo. – O Burloc não é confiável para se fazer negócio, e o senhor sabe de que lado ele está em toda essa guerra.
– Eu sei, filho, eu sei. Mas fazer negócio com o Burloc é mais confiável do que retornar para a cidade e ser alvejado pelos soldados. – Diz tentando convencer o filho.
– Nos deixe ir com o senhor, senhor Marc! – Peço enquanto observo o olhar surpreso de Ivo. Marc me olha diretamente, é notório que entrara em um estado de pensamento acalorado. Ivo alterna em olhar para mim e para o seu pai, mas então se levanta da cadeira e sai pela porta dos fundos. Sem pensar, eu também me levanto e saio atrás de Ivo.
Ivo anda cada vez mais depressa, mas isso não impede que eu o alcança. Seguro em seu braço e o faço parar, ele está triste, então o abraço como uma forma de tentar expulsar tal tristeza, percebo que ele chora no meu ombro.
– Eu não quero perder meu pai também, Bernardo. Se ele for, tenho certeza, sinto que ele não vai voltar mais, assim como minha mãe se foi para nunca mais. – Ele conta o que está lhe deixando triste.
Como eu desejo poder deixar as coisas ao meu redor tão menos complicadas, tão menos doloridas. O choro em meu ombro, o soluçar mostra a fragilidade do que parece ser forte, mostra as rachaduras que o solo possui, não que isso não seja bom, muito pelo contrário. Eu cheguei a achar que ele mudou muito, mas não, ele não mudou… continua o mesmo ser que chorava comigo, que era solidário na dor e alegria.

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22 comentários sobre “Contador de Estrelas: Capítulo 3 – Querido Amigo

      1. Eu tenho de ser mais presente aqui também mas como não passo pelo wordpress não consigo vir tanto. 🙂 Você ainda se lembrava do link? 😮

      2. Que bom! 🙂 Muito obrigado. Foi um dos pouquíssimos que continuaram a visitar. 🙂 Foi boa a mudança. Já chegamos aos 200 subscritores. 🙂

      3. Faria só uma mudança no blog. Tirava o titulo que fica em cima do menu. Visto ter o banner em baixo ficaria ainda melhor. 🙂

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