Contador de Estrelas: Capítulo 2 – Um Novo Lugar


Ivo e eu não paramos um segundo sequer de olhar pela janela do carro do pai dele, o caminho que percorremos. Percebemos que as bombas ainda não chegaram nesse local, então abrimos um sorriso desejando que tudo isso seja real e não um sonho tolo que vai se desfazer assim que abrirmos os olhos. Marc, um homem na casa de seus quarenta anos e pai do meu amigo sai da estrada principal e entra em um caminho mais estreito, nos deixando apreensivos. A chuva diminui sua intensidade, mesmo assim não é confiável, pois parece molhar muito quem ousar olhar em seus olhos.

– Você poderia me dizer de uma vez para que lugar estamos indo, Ivo? Já não aguento mais de curiosidade mesmo que não seja para tanto. – Digo enquanto desvio meu olhar para o rosto dele, que aparenta estar sereno.

– Estamos indo para a Fazenda, Bernardo. É o melhor lugar para ficarmos no momento. – Ele responde com um leve sorriso.

Eu conheço a Fazenda da família de Ivo, sempre fui um visitante assíduo daquele belo lugar, um local que me traz ótimas lembranças e ele realmente está certo quando diz que o local é seguro, fiquei mais tranquilo por causa da resposta.

Assim que o carro para, ainda com a chuva, eu saio e paro próximo da varanda afim de não me molhar mais, miro então o horizonte no qual as nuvens começavam a desaparecer e dar lugar ao sol avermelhado. Ivo se aproxima de mim um pouco mais feliz do que mais cedo ainda no prédio onde eu morava.

– Desculpa ter falado com você daquele jeito tão duro, eu não queria deixá-lo de nenhuma forma, não queria ver você ficando em um lugar condenado. – Ivo diz enquanto pousa um de seus braços no meus ombros.

– Mas você estava certo, Ivo. Eu não poderia ficar alí a espera de meu pai ou de minha mãe sendo que eles nunca mais voltarão. Obrigado por ter insistido. – Digo esboçando um sorriso pequeno em agradecimento.

Ivo continua da mesma forma, sinto o peso do seu olhar sobre meu rosto que parece esquentar, algo que ele sempre faz quando está analisando profundamente o momento.

– Você não vai me dizer o que quase ocasionou a sua não vinda com a gente? Eu sei que você pegou algo antes de vir. – Ele questiona, mas não de forma dura ou zangada, mas de forma calma e doce. Meus olhos encontram-se com o dele em um campo onde tudo parece belo demais.

Coloco a mão no bolso e retiro algo que sempre me marcou muito e que eu não desejo perder de forma alguma, sinto isso em minhas mãos,  é como se eu ainda estivesse na minha infância, fase em que recebi esse presente do meu pai e de minha mãe.

– É a luneta, Ivo… a luneta que meu pai e minha mãe me deram, eram momentos tão bons, difíceis, mas bons. – Respondo enquanto mostro a ele o objeto. Ivo retira seu braço de cima do meu ombro e no mesmo instante toca a luneta e me olha com compreensão, ele sabe o que aquilo representa para mim, para nós.

– Ei, rapazes! – É a voz do pai dele. – Não vão me ajudar aqui? – Marc pergunta enquanto tenta pegar as malas.

– Desculpe, pai! Estávamos distraídos. – Ivo diz já seguindo para perto do pai e pegando umas três malas grandes. Sigo e também faço o mesmo para que tudo seja rápido.

A chuva passa assim como meu ‘senso de tempestade’ disse e logo é possível ver o pôr-do-sol tímido e as nuvens ralas no céu. Ivo se aproxima de mim, está com outra roupa e perfumado, muito mais do que quando chegamos, ele se senta ao meu lado em um dos degraus que dá acesso a varanda.

– Parece que hoje não vai dar para você contar as estrelas, Bernardo. – Diz, provocativo, pois sabe que boa parte das nuvens mais espessas já desapareceram, o que resta é uma um vento frio que toca sem pudor a nossa pele.

– Você sabe que isso não é verdade. Mesmo que haja nuvens, posso sentir as estrelas aqui. – Digo colocando a mão no coração. – É algo que me faz ir mais longe sem precisar sair do lugar.

– Livros também fazem isso, Bernardo. – Ele diz, brincalhão.

– Por isso eu também os amo com muita intensidade. Agora parece que estou mais perto do que eu quero, mais perto daquilo que parecia tão longe.

– Eu estou aqui com você, com meu pai, estou em paz, pelo menos externamente… mas ainda consigo ouvir os gritos das pessoas que não puderam fugir, que não tiveram a mesma chance que nós. – Ivo diz nitidamente triste. – Você acredita que tudo isso vai terminar um dia? – Questiona mantendo seu olhar no meu.

– Nada que seja ruim dura para sempre, Ivo. Logo eu, você, seu pai e todos que estão lá fora poderão respirar aliviado, poderão ver que o futuro não morreu, que Deus ainda está conosco. – Respondo um pouco impressionado.

Eu me levanto e caminho em direção ao campo enquanto Ivo continua sentado, parece pensar muito. Verifico se minha luneta está no meu bolso e abro um sorriso ao sentí-la. Caminho quase sem direção, se alguém desconhecido me visse com certeza me levaria às mãos do que diz estar protegendo uma raça. Me assusto como nunca quando sinto uma mão  tocar meu ombro, não penso em virar tamanho é o medo de ser alguém que queira  praticar o mal. Respiro aceleradamente.

– Ei, não vai morrer do coração agora, vai? – Pergunta enquanto dá uma boa risada ao sentir que estou trêmulo.

Tomo a coragem que me falta e me viro, ficando de frente com Ivo, que mantêm  um sorriso, parece se divertir com o susto que tomei.

– Isso não é coisa que se faça com um amigo, Ivo. Eu poderia ter infartado aqui. – Repreendo ele ainda meio trêmulo.

– Eu só queria dizer pra você não se afastar tanto, Bernardo. Meu pai me disse que por essas terras há mistérios que até os próprios mistérios desconhecem. – Diz me fazendo arrepiar todo.

– Então fique comigo, pois ainda quero observar as estrelas. – Peço, despropositadamente.

Assim que me sento na grama baixa do campo, passo a olhar as estrelas e ao mesmo tempo ver a minha vida, pois elas parecem dizer algo  que ainda não estou preparado para ouvir, Ivo está ao meu lado, observa, mas aparentemente não como eu. Começo a olhar pela luneta só pra me sentir um pouquinho mais perto já que de fato não posso tocá-las como eu queria. Meu rosto volta queimar, pois sinto que Ivo me observa, deixara as estrelas. Fico a pensar como deveria ser livre, isso para viver e para ser, como deveria ser a liberdade de escolha, pois não sei como é, acredito que desde que nasci isso perdura. De repente deixo a luneta e olho diretamente para as estrelas,  para a lua que está brilhante depois da chuva. Meus olhos parecem me levar até um mundo que só eu conheço, um mundo em que o ódio não tem vez, onde a paz reina em todas as mentes, onde o amor transborda em todos os corações.

– Você ainda se lembra, não se lembra? – Pergunto enquanto caio sem paraquedas do mundo para onde meu pensamentos haviam me levado.

Ivo parece não entender a pergunta, mas isso só em um primeiro momento, pois logo vejo seus olhos se desviarem dos meus. Me mantenho olhando para ele apesar de não obter nenhuma resposta, pelo menos não que fosse possível eu ouvir. Tudo agora fica complicado demais, as estrelas parecem desaparecer mesmo estando alí.

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