Contador de Estrelas: Capítulo 1 – A Partida


Meus olhos se fecham por uma questão de segundos enquanto ouço as terríveis bombas sendo lançadas pelos aviões das tropas ditas como inimigas, sinto de imediato todo o prédio onde estou, tremer, parece até mesmo estar prestes a cair, continuo com meus olhos fechados talvez na ingênua tentativa de escapar da triste realidade que já abraça o local onde vivo, talvez por saber que logo oprédio irá tremer e cair como um castelo de cartas, soterrando dessa maneira não apenas o meu viver e os meus sonhos, mas também o de outras pessoas que vivem por aqui.

Enquanto mantenho meus olhos fechados com a face parcialmente encostada no vidro da janela, vejo um mar de estrelas, um céu que me encanta e que faz parte dos meus desejos ingênuos para logo que a guerra tiver um fim, posso sentir o soprar dos ventos que vem de todas as direções, posso sentir o peso da tão sonhada liberdade. As estrelas parecem ter um brilho muito mais cativante,  só consigo parar de imaginar tudo isso quando sou obrigado a abrir meus olhos por ter ouvido uma batida na porta.

– Abra, Bernardo! – Ouço a voz um pouco fina do outro lado da grande porta de madeira envernizada. – Sei que você está aí e não sairei daqui enquanto você não vir comigo. – A voz faz uma pausa, parece tomar fôlego, talvez por ter subido correndo os lances de escada. – Deixe de brincadeira, meu amigo, meu pai está nos esperando lá embaixo.

Reconheci a voz não agora, mas desde a primeira palavra, é meu amigo Ivo. Deixei todos os pensamentos que me mantinham parado próximo da janela e segui para porta com uma certa pressa, pois vi que Ivo também estava apressado. Quando abri a porta, depois de destravar as sete trancas que existem, senti as mãos frias de meu amigo tocarem as minhas, e como ele é mais forte que eu, praticamente fui arrastado para  fora do apartamento.

– Espere! Espere! – Digo enquanto tento me soltar de suas mãos. – Não posso ir embora dessa maneira, Ivo, não mesmo. – Digo de maneira taxativa mas sem passar nenhuma confiança já que estava com muito medo do meu futuro.

Ivo me encara como sempre faz quando está com raiva de mim, seus olhos azuis olham para minha face.

– Você quer ficar para morrer, Bernardo? Seus pais não voltarão, entenda isso de uma vez e faça o favor de vir comigo. Estamos em uma guerra real e não aquelas de brincadeira que cansamos de brincar na nossa infância, a qualquer momento uma bomba pode atingir esse prédio. – Ele diz com raiva e tristeza atravessando sua garganta enquanto eu o encaro com certa admiração, pois percebi que Ivo havia amadurecido, e eu pareço continuar o mesmo pirralho que gostava de se fantasiar de soldado e brincar de guerras. – Não deixarei você aqui, nem que eu tenha de levar você amarrado, mas eu vou levar. – Afirma enquanto volta a segurar meu pulso.

Eu não tenho como argumentar, olho para Ivo, que por sua vez se mantêm sério ao me encarar, parece mesmo disposto a me tirar de onde  vivo a qualquer custo.

– Só preciso pegar uma coisa. – Digo ao me desvencilhar dele e entrar novamente no apartamento. Ivo vem atrás de mim, parece me vigiar para ter a certeza de que não irei desistir. Vou direto a gaveta da escrivaninha próximo da porta e pego algo muito importante para mim, algo que me deixa mais perto do que tanto gosto.

– Você não tem jeito. – Ivo diz ao perceber o que peguei. Olho para ele e percebo que sua expressão séria caiu e agora está o mesmo rapaz meigo, nada amedrontador de poucos segundos atrás. – Vamos, pois meu pai  já deve estar completamente impaciente com essa nossa demora.

Saio do apartamento sem me preocupar em fechar a porta, e sigo com Ivo pelas escadas, ele realmente está muito apressado e segue mais rápido do que eu pelos degraus, mas quase chegando a saída, o faço parar.

– Para onde estamos seguindo,  Ivo? – Questiono, um pouco preocupado com o destino que parece ser completamente incerto. Meu questionamento faz com que Ivo pare um degrau após o degrau onde estou.

– Você confia em mim? – Agora é ele quem questiona, parecendo estar seguro da resposta que virá.

– Eu confio! – Respondo com grande convicção, a única que ainda parece habitar minha mente já lotada por tantos acontecimentos.

– Então continue confiando. A única coisa  que posso dizer é que será um lugar melhor que esse aqui, um lugar onde estaremos seguros, longe do horror que tudo isso se tornou à nossa volta. – A Resposta dele vem carregada de confiança, uma confiança que eu jamais pensaria em duvidar.

Enquanto voltamos a caminhar,  fico a pensar se realmente existe um lugar melhor assim como Ivo disse ou ele apenas disse isso para me deixar tranquilo. Chego a cogitar a possibilidade de um lugar melhor não existir e estar sendo levado para onde o sofrimento é multiplicado por mil. Assim que saímos na calçada, avistamos o veículo de seu pai, Ivo então me olha como se tivesse pedindo de maneira silenciosa que eu não duvidasse dele. Eu, um pouco mais calmo, esboço um leve sorriso como se concordasse com o que foi dito de maneira silenciosa. Ele corre para o carro tentando evitar ser molhado pela chuva que cai, e logo vou atrás e quando chego perto do veículo, olho para o prédio onde vivi durante tanto tempo, as lembranças são muitas assim que olho para a fachada e vejo o nome do edifício. Desperto depois de ouvir ao longe mais uma bomba caindo e entro no carro, me sento ao lado de Ivo, que me encara com um sorriso bobo, acha graça por eu ter me molhado bastante.

– Vamos sair daqui, garotos! – Diz Marc, o pai de Ivo. O veículo em que estamos é posto em movimento, e logo vejo tudo passando lentamente, o edifício onde vivi ficando para trás, algumas pessoas fazendo o mesmo que nós, outras entrando em suas casas como se nada demais tivesse acontecendo.

Paro de olhar pela janela do carro e meus olhos vão de encontro aos olhos de Ivo, que parece me analisar ou tenta adivinhar no que penso. Ele toca a minha mão e sorri amigavelmente.

– Obrigado! – Balbucio em meio a um leve sorriso.

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