Marcas do Viver: Descuido

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Quando se começa uma relação, tudo é belo, cativante, chamativo, o amor é gigantesco, e realmente muitos não sabem o que acontece, mas a medida em que o tempo passa, as coisas parecem não terem a mesma chama de outrora, tudo parece se esfriar da forma mais rápida possível. Descuido, é um dos pontos em que se pode tocar e que podemos apontar com certeza absoluta de ser um dos causadores desse esfriamento.

Tânia sempre viveu uma boa relação com Igor, já iam fazer 15 anos de casados, tinham um filho de 12 anos, o Gabriel, todos viviam confortavelmente em um apartamento de última geração no Centro da cidade. A rotina era quase a mesma há uma década, saíam para trabalhar e levavam o filho para a escola, e Igor era quem pegava o filho na volta, pois Tânia sempre chegava uma hora mais tarde, parecia ser tudo perfeito, tudo normal.

Assim que retornavam do trabalho, Igor ajudava Tânia a fazer o jantar enquanto Gabriel assistia televisão, de vez em quando um olhava para o outro, porém o olhar não tinha mais o mesmo brilho de antes. Jantavam todos juntos como uma família feliz,  mas os pais sabiam que nada andava bem há algum tempo.

Gabriel recebia abraços e beijos dos pais antes de adormecer. Tânia e Igor seguiam para o quarto deles assim que deixavam o filho no quarto dele, e se arrumavam na cama sem nada dizer um para o outro. Mas nesse dia foi diferente do que já se arrastava.

– Isso não pode continuar dessa maneira, Tânia.

– Concordo com você, Igor!

Os carinhos, os apelidos carinhosos já não existiam mais como um dia existiu, os olhos não teimavam mais em se cruzarem, as bocas não queriam mais tocar uma na outra.

– Isso que estamos tentando evitar é inevitável, Tânia. Estamos aqui há um bom tempo nos tratando como estranhos, como se fôssemos, na verdade, como se não fôssemos mais tão íntimos. Temos um filho juntos, temos uma vida juntos. – Igor diz enquanto ajeita o travesseiro.

– Estamos parecendo dois estranhos, vivendo praticamente de aparências. Onde foi que erramos? O que fizemos para deixarmos nossa relação cair no esquecimento? Você nunca foi ruim para mim, nem eu para você.  – Se questiona deixando algumas lágrimas caírem.

– Acho que a pergunta certa é o que não fizemos para que as coisas chegassem nessa inércia absurda. Estamos parados, um olhando para o outro, mas nossas mãos não se alcançam, logo nem mesmo se tocam. Você acredita que o amor acabou? – Pergunta com um semblante de preocupação.

– Será que ele acabou, Igor? – Tânia também questiona. Depois de tanto tempo, eles ficam deitados, um de frente para o outro, tentam entender o que houve, o que está acontecendo, procuram além da explicação, uma solução definitiva.

Igor olha para a mãe de seu filho. Tânia olha para o pai de seu filho, vasculham o interior de ambos em busca de um vestígio do que foi a relação dos dois no início.

– Você ainda se lembra como nos conhecemos? – Tânia pergunta enquanto se lembra com ricos detalhes de como foi.

– Jamais me esqueceria. Nos conhecemos em uma trombada no parque. Você estava com algumas sacolas, que acabaram caindo, e eu a ajudei, era o mínimo que eu poderia ter feito. – Responde enquanto sorri.

– E nós ficamos no em passe para saber de quem foi a culpa. Acredito que estamos fazendo o mesmo há meses com nosso relacionamento, procurando um culpado que não existe. A verdade é que nós nos esquecemos de zelar por nosso casamento. A gente manteve o zelo no nosso emprego, no nosso filho, no nossos amigos, mas nos esquecemos de nós próprios. – Diz ainda olhando nos olhos de quem já é seu companheiro há uma década e meia.

– Essa conversa foi adiada por muito tempo, adiamos por puro medo. Acredito que já encontramos a solução. – Afirma mantendo seu olhar firme, mas agora com  a ternura de um tempo que pareceu irrecuperável.

Tânia e Igor foram dormir com a certeza do que deveriam fazer a partir do momento em que o despertador tocasse sua já conhecida melodias de todas as manhãs.


Marcas do Viver é uma ‘coletânea’ de contos baseados em fatos da vida real dramatizados pela imaginação desse que vos escreve.

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