Linha do Tempo: Sanidade Na Loucura


Parece que nada dura para sempre, e também parece que esse é um pensamento de um desconsolado em dúvidas, um eterno amante da queda das folhas no outono que antecede o inverno, estação que beira a predileção de quem aqui escreve. A linha já está mais  esticada do que nunca, não sofre com saliências em certos lugares e disponibiliza algumas memórias que conseguiu armazenar antes de se perder pela imensidão da vida,  que pode ser devastadora em certos casos, mas ela retornou para casa no vento frio e se esticou sozinha em uma noite qualquer.

Meus olhos pareciam loucos, queriam me enganar enquanto eu observava a chuva da manhã, queriam que eu enxergasse alguém que deixou o aconchego dos abraços apertados há dias. Mania minha, quando estava ansioso passava a contar coisas, é dessa vez foi o pingo de chuva que cai próximo da janela, mas não contava exatamente, pois era rápido demais, assim eu me enganava, então será que eu estava a fazer o mesmo com minha vida como um todo? Acredito que em partes, só para não admitir o todo e sair como louco dessa história que se aproxima do mais incompleto devaneio.

Quem eu estava a esperar enquanto observava a chuva cair? Esperava por alguém que não viveu muito, não viveu muito ao meu lado, sua companhia era apenas de alguns em dias em diferentes épocas. Saí de perto da janela quando um trovão se deu no Alto céu, parecendo querer afugentar todos aqueles de medo acessível, assim como eu, que me sentei em um sofá aconchegante enquanto voltava meu olhar cambaleante para o caderno ao meu lado e a caneta que na noite anterior havia colocado no seu meio para que impedisse de eu me perder, pelo menos alí, no alcançável, onde  o horizonte não pudesse interferir.

Abri o caderno enquanto a chuva se fortalecia lá fora, e comecei com a mesma ânsia de sempre a planejar mais uma edificação de sentimentos que tinha a pretensão de formar algo que realmente pudesse tocar quem um dia pudesse ler o diário de meu íntimo. O espetáculo tem que continuar, mesmo debaixo de chuba, mesmo debaixo do sentimentalismo que estava a corroer o fio de sanidade que ainda resistia bravamente. Levantei o olhar depressa para a janela na esperança de ver seu sorriso, mas encontrei apenas o vidro embaçado, então me resignei e pus a desenvolver outra coisa que meu ego me fazia acreditar na boa realização.

Posso tentar esquecer

Posso, abrir os olhos e não mais ver

Fechar os olhos e não se importar

Com o abismo que pudesse achar.

Posso me afogar no descontentamento 

Posso, esperar o sopro do vento

Para me acalentar 

Enquanto rouba o que me restar.

As lembranças sufocadas vão remando ao contrário 

Esquecer parece não ser mais necessário 

Quando sua presença parece exigir o quem tem direito

Vem em busca de certo beijo

Até eu não cogitar mais o esquecimento 

E viver a querer driblar o tempo.

Você voltará e as lembranças sairão da prisão

Depois de tentarem contra o coração.

A chuva agora já se fazia uma fina garoa e parecia deixar o corpo mole, fazendo a preguiça se instalar para uma estadia com hora certa para acabar. Movi minha cabeça enquanto deixava a caneta e o velho caderno no assento ao meu lado, e vi uma mão começar a bater no vidro da janela com certa insistência, perguntei a mim mesmo se deveria ser a saudade que resolveu pedir abrigo ou o amor que desejava falar comigo, o outono estava surpreendente de mais, caros amigos. Me levantei e segui até a porta, então a mão que batia, saiu da janela e assim que abri a porta, a senti tocando minha mão, e o arrepio foi instântaneo, talvez muito mais por seu membro estar frio do que qualquer outra coisa, não falamos absolutamente nada, mas tinha certeza que não era necessário dizer. Seu toque no meu rosto deu uma sensação desprovida de qualquer explicação, assim como o beijo que estava quente demais e deixou que a gente começasse a transpirar desejo de estar mais uma vez juntos a recomeçar, dar continuidade ao que deixamos pela metade. A porta se fechou, sua pessoa entrou e depois, foi muito mais do prazer, foi a afirmação de que algumas coisas apesar de parecer que não darão certo, dão e da melhor forma possível. Sobre o desconsolado em dúvidas, esse agora era um consolado cheio de certeza por estar nos braços da felicidade, mesmo que por pouco tempo até os beijos não mais acontecerem, por motivos óbvios, claro, a época não favorecia um bom romance desprovido de aparências.

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2 comentários sobre “Linha do Tempo: Sanidade Na Loucura

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