Linha do Tempo: Após a Tempestade


Minha linha ainda não arrebentou apesar de estar muito bem esticada e ter que suportar todo o peso de minha memória, mas cuido bem dela para que não ouse me deixar na mão, até mesmo parece um certo jogo de interesse, talvez seja ou talvez um precisa do outro para que se mantenham bem até que aquele sono profundo rompa todas as barreiras e venha até nós, não de forma assustadora, mas acolhedora.

Lembro que a chuva acabava de dar uma trégua naquele dia que foi em parte, ensolarado. Os raios de sol surgiram entre as nuvens que se tornavam cada vez mais ralas, e já se fez nítido que a tarde já  se aproximava do fim. Eu, debruçado na janela observava o cantar dos pássaros em uma floresta um pouco longe dalí onde eu residia. O inverno com a chuva  que acabara de cessar ficou um pouco mais rigoroso, então saí da janela e fui me agasalhar da melhor maneira possível, pois não queria perder nada do movimento que acontecia naquele momento, confesso que o nascer do dia e o seu repousar eram os meus momentos favoritos,  além de estar na companhia dos meus amigos, que agora eu guardava com enorme carinho em uma caixa de vidro bem em frente da minha mesa de trabalho.

Voltei para perto da janela e olhei para o horizonte, no qual vi carros se aproximarem com suas extremas velocidades, que não eram tão grande assim. Os veículos logo chegaram na vila em que nasci, eram todos homens mal encarados e portando armas que matariam apenas se as olhassem. Me escondi  atrás das cortinas brancas para não correr o risco deles me verem, mesmo não sendo exatamente eu quem eles procuravam. Assim que muitos dos homens passaram, tive a tola ideia de reaparecer, então meus olhos cruzaram com minha perdição, parecia até que nos conhecíamos, pois senti que seu olhar vasculhava todo meu interior, parecia já ser de casa o seu olhar doce e profundo. Fiquei a observar toda a movimentação por entre as cortinas, estava suando frio como nunca estive pelo que eu me lembrava. Vi pessoas seguindo para um destino cruel e me imaginei entre eles, me imaginei em situação parecida, pois eram meus colegas, meia vizinhos que estavam a ser levados para quem sabe onde, e depois? Depois com sorte teriam uma partida menos horrenda do que todos os outros do mês passado. Saí da janela e me sentei na mesa onde eu abrigava a maioria de meus escritos, e peguei a caneta, pedi desculpa mais uma vez por não estar utilizando meus fiéis amigos, e segui para o colocar de alma em palavras transcritas num papel.

Essa dor que invade não é dor que se cura com um beijo 

Nem dor que se passa com um bocejo

É dor que não vai passar, é dor que veio para ficar.

Estou sendo egoísta ao me deitar com você 

Enquanto muitos são levados a um destino cruel

Logo me vejo sendo transformado em réu

Por tentar não ver o que está acontecer.

Me prendo em algo que possa assegurar minha estadia 

Não quero parecer uma pessoa fria

Sofrendo estou por ver muitos partirem

Sem que eu possa alcançar suas mãos

E sei que cedo ou mais tarde também serei levado 

Para um lugar totalmente isolado

Por isso estou a aproveitar do seu cheiro

Bebendo seu néctar por meio de um beijo

Quem sabe não seja nosso último encontro

E sobre partir, nunca estarei pronto.

Minhas lágrimas já formavam um rio de saudades, de lembranças daquele lugar. Olhei para o relógio acima de minha cabeça, e constatei que as horas mais uma vez fizeram questão de andarem apressadas. Tudo parecia calmo lá fora, tudo parecia sepulcral. Levantei da cadeira e meu coração acelerou quando ouvi batidas insistentes na porta, não tive alternativa, então fui abrir. Quando minha mão tocou a maçaneta e a outra o trinco que deixava tudo mais seguro, senti um arrepio percorrer todo o meu corpo.

– Abra! Eu sei que você está aí. – Ordenou alguém do outro lado da porta, uma ordem que me fez ficar com mais receio ainda, logo abri a porta, que também se fechou com a mesma rapidez que foi aberta.

Senti meu corpo tremer imaginando que aquela sim poderia ser a hora de eu me desfazer de toda matéria que possuía. Afastei-me devagar até a mesa e então senti sua aproximação sem nenhuma intenção de recuar. Eu fechei os meus olhos, pois não queria saber como seria, como terminaria para mim, então senti uma boca encostar na minha, não pude acreditar que estava acontecer, mas realmente estava. O beijo foi apenas o início de algo prazeroso que tratou de acontecer naquela noite mesma, senti que não era o único com receio, senti que eram duas pessoas procurando proteção de maneira diferentes, era como se nos conhecêssemos e soubéssemos apenas com um simples beijo do que o outro necessitava, estava protegido, pelo menos por mais aquela noite

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9 comentários sobre “Linha do Tempo: Após a Tempestade

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