A Jogada: Capítulo 4


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CENA  1: Maré Verde, Bairro São Jorge, Casa de Teresa, Interior, Noite

Enrique está com os olhos arregalados, parece visualizar um fantasma a sua frente, receia por piscar os olhos e o que acontece ter sido apenas fruto de sua imaginação. Enrique dá alguns  passos na direção da pessoa e constata que é verdade o que se vê, a pessoa se movimenta na direção de Enrique à procura de um abraço talvez, mas o rapaz desvia, a mágoa e a incerteza falam mais alto no momento.

ENRIQUE: – Como? Como o senhor pôde fazer isso? O senhor não está morto, olha só, está vivo, está vivo, pai

Eros é quem está alí, agora usa uma barba e bigode, seus cabelos estão mais compridos, ele abaixa a cabeça.

EROS: – Foi necessário, filho, acredite.

ENRIQUE: – Mais outra mentira necessária. O senhor não morreu, está bem, está aqui, eu deveria estar  feliz por isso, deveria. – Diz com os olhos marejados.

EROS: – Desculpa, filho, por favor, me desculpe.

ENRIQUE: – Acho melhor o senhor ir, seja pro lugar onde você estiver, é o melhor.

EROS: – Mas eu vou voltar,  filho e explicarei tudo, prometo.

Eros se aproxima do filho e toca seu ombro. Enrique tenta nao manter contato visual com o pai, que vai embora. O rapaz chora assim que se vê sozinho, mergulha em uma imensidão de pensamentos.


CENA 2: Maré Verde, Centro, Hospital, Sala de Espera, Interior, Noite

Teresa está sentada em uma das cadeiras da sala de espera, também está aflita pela demora na cirurgia de sua mãe e ainda tem o estranho que a observa de longe. Teresa é curiosa por natureza e não entende o que tal homem tão bem apessoado faz alí e ainda mais demonstrando conhecer sua mãe, ela se levanta da cadeira e segue até Igor.

TERESA: – Quem é o senhor e qual o motivo de estar ajudando minha mãe?

Igor olha diretamente para Teresa, e não a reconhece de primeira. Teresa tenta intimidar ele, mesmo não sabendo como.

IGOR: – Sou um amigo de sua mãe. – Responde convicto da mentira.

TERESA: – Estranho, minha mãe nunca disse que tinha amigos, ainda mais assim como o senhor.

IGOR: – Nossos pais às vezes não contam tudo pra gente, afinal eles não tem obrigação, mas nós sim temos de contar tudo  pra eles. Sua mãe foi muito amiga de minha mãe, e quando eu fiquei sabendo como ela estava, não pude ficar parado.

TERESA: – Como o senhor soube? – Questiona Teresa procurando confiar pelo menos um pouco no estanho na sua frente.

IGOR: – Eu tenho um amigo que trabalha como enfermeiro aqui, e então ele me ligou, por já conhecer a dona Dolores. Desculpa se estou  a causar algum incômodo.

TERESA (Desconcertada): – Não, eu que tenho que me desculpar por estar lhe fazendo tanta pergunta.

IGOR: – Eu a admiro por isso, pois vejo que dona Dolores tem uma ótima filha, que se preocupa, que está ao lado dela.

TERESA: – Minha mãe é tudo o que eu tenho, se caso algo acontecer com ela, eu ficarei sem chão. – Diz colocando as mãos no rosto e começando a chorar.

Igor se aproxima um pouco mais de Teresa e a toca no braço.

IGOR: – Sua mãe ficará bem, Teresa, acredite nisso.


CENA 3: Maré Verde 

Alguns navios partem do Porto de Amaral, outros chegam e atracam. As avenidas estão movimentadas. Em frente ao hospital, uma ambulância chega às pressas.


CENA 4: Maré Verde, Centro, Hospital, Sala de Espera, Interior, Noite

Enrique sai depressa do táxi, e entra no hospital seguindo direto para a sala de espera não encontrando Teresa alí, apenas Igor, que volta a encará-lo assim que entra.

ENRIQUE: – Você viu a Teresa?

IGOR: – Ela está com a mãe no quarto, e correu tudo bem. – Responde mantendo seus olhos nos olhos de Enrique.

ENRIQUE: – Obrigado por ter ajudado, Igor.

Igor arregala os olhos diante de Enrique.

IGOR: – Você sabe o meu o nome?

ENRIQUE: – Ela me contou.

IGOR: – Tudo?

ENRIQUE: – Apenas o necessário, e de certa forma eu agradeço, pois ela sempre foi como uma mãe pra mim também, e se eu tivesse em condições, teria ajudado ela e a Teresa.

IGOR: – Em condições?

ENRIQUE: – Sim, eu acabei de deixar a penitenciária, e não tenho dinheiro e muito menos trabalho, por isso não pude fazer muita coisa.

Teresa entra pela porta interrompendo a conversa, ela olha para Enrique e depois para Igor.

TERESA (para Igor): – Ela quer falar com o senhor.

IGOR: – Eu vou até ela.

Igor sai da presença de Teresa e Enrique.


CENA 5: Maré Verde, Casa de Estefano, Escritório, Interior, Noite

Estefano tem em suas mãos uma taça de vinho, o seu preferido, e se levanta, começa a caminhar por todo o espaço do escritório, segue até a janela e se põe a olhar para fora.

ESTEFANO: – Não posso admitir um policial tão  perto de mim, ainda mais sendo da Polícia portuguesa. – Diz antes de tomar um gole de vinho. – O que será de mim  caso ele esteja ainda em exercício,  não  posso de maneira alguma correr tal risco.

Estefano caminha até seu celular sobre a mesa e o pega, digita rapidamente alguns números e inicia uma chamada, logo encosta o aparelho no ouvido.

ESTEFANO (Ao Celular): – Antes de você vir tenho um último serviço, e quero informações totalmente detalhadas, ouviu bem? Não me venha com trabalhos de quarta série.


CENA 6:  Maré Verde, Casa de Estefano, Quarto de Rebeca, Interior, Noite

Rebeca está no banho, sempre canta algumas músicas de seu gosto pessoal enquanto se banha. Manoel retira a camisa, revela um corpo bem trabalhado, então pega o celular do bolso da calça jeans e procura o contato desejado, assim que encontra  inicia uma chamada e fica  atento à porta do banheiro.

MANOEL (Ao Celular): – Que bom que atendeste, precisava mesmo falar mais um bocadinho com tu.

HOMEM (Do outro lado da linha): – Podes falar, Manel, o que desejas?

MANOEL  (Ao Celular): – Já conseguiste tudo o que eu precisava?

HOMEM (Do outro lado da linha): – Absolutamente tudo, está tudo à disposição de quem quiser saber, não te preocupes.

MANOEL (Ao Celular): – Muito obrigado, beijinhos!

Manoel encerra a ligação e respira aliviado assim que guarda o celular no bolso novamente. Rebeca sai do banho só com a toalha enrolada no seu corpo, ela se aproxima de Manoel, que sorri.

REBECA: – Vai banhar, eu quero aproveitar muito de você. – Diz  sorrindo antes de beijar Manoel.


CENA 7: Maré Verde 

O movimento das avenidas  diminuem, é possível ver pouca quantidade de veículos circulando. A madrugada chega, e logo o sol começa a despontar no horizonte, a areia da praia se ilumina, as  ondas batem em algumas pedras. O dia amanhece.


CENA 8: Maré Verde, Edifício Samir, Apartamento de Igor, Sala, Interior, Manhã

Igor sai do banheiro com a toalha enrolada na cintura, com uma outra, ele seca os cabelos negros, segue para a sala e começa a pensar na conversa que teve com Dolores, seus olhos se enchem de lágrimas.

IGOR: – Eu poderia mesmo ser diferente, poderia. – Diz pensando na noite anterior, e em sua mente vem a imagem de Teresa. – Ela cuidou tão bem daquela menina, acho que nem os pais  dela teriam cuidado dessa maneira.

Igor caminha até o sofá e arruma algumas de suas revistas que estão espalhadas, e enquanto faz isso continua pensando no que conversou com sua mãe no hospital.

IGOR: – O que eu fiz  é  imperdoável, dona Dolores, você estava certa o tempo todo. Eu tive a chance de mudar tudo isso e  não  mudei, tive a chance de desabafar com a senhora, mas não fiz por puro orgulho. É tarde demais.

A campainha toca, e Igor se dirige até a porta se esquecendo que está apenas de toalha. Ele abre a porta e fica surpreso.

IGOR: – Ariadna?

Uma mulher de média estatura está parada sorridente. Ela corre os olhos por todo o corpo de Igor.

ARIADNA: – Eu mesma, o que foi? Achou que nunca mais iria me ver? – Questiona entrando e se aproximando de Igor. – Achou  que eu não iria mais provar disso tudo aqui? – Pergunta fechando a porta e puxando a toalha de Igor, o deixando nu.


CENA 9: Maré Verde, Centro, Hospital, Quarto, Interior, Manhã 

Teresa abraça e beija o rosto da mãe, está feliz por vê-la bem novamente. Teresa se senta  na cama e segura a mão de Dolores.

TERESA: – Viu? Eu disse que tudo iria dar certo.

DOLORES: – Estou feliz por ter ganho mais esse tempinho pra ficar com vocês. – Diz olhando para Enrique, que sorri.

ENRIQUE: – Você ainda vai ficar muito tempo com a gente, dona  Dolores, vai ver seus netos e bisnetos crescerem. – Afirma sorridente.

DOLORES: – Vocês dois são as coisas mais importantes da minha vida, e ver vocês dois juntos é o que vai me dar força para seguir.

TERESA: – Nós sempre estaremos juntos, mãe. O Enrique é o amor da  minha vida e nada vai me separar dele, prometo.

ENRIQUE: – Eu digo o mesmo dona Dolores, sua filha é a razão do meu  viver.

Enrique se aproxima de Teresa e a beija.


CENA 10: Maré Verde 

O dia passa rapidamente, assim como a noite. Logo mais um dia se inicia e passa de forma acelerada, o sol se põe, a lua aparece. O sol volta a nascer.

DIAS DEPOIS 


CENA 11: Maré Verde, Bairro São Jorge, Casa de Teresa, Sala, Interior, Manhã 

Enrique, Teresa e Dolores entram em casa. Enrique  leva Dolores até o quarto e retorna para a sala em seguida. Teresa está na cozinha. Enrique fica pensativo, e acaba indo ao dia em que viu seu pai novamente.

ENRIQUE (Pensando): – Tudo aquilo foi uma farsa, mas para quê? Quem forja a própria morte desse jeito? – Se pergunta em pensamento.

Teresa se aproxima com uma xícara de café e entrega para Enrique.

TERESA: – No que estava pensando?

ENRIQUE: – Eu vi meu pai, Teresa.

Teresa se senta ao lado de Enrique, incrédula.

TERESA: – Como assim você viu seu pai?

ENRIQUE: – Eu vi, ele estava aqui, ele não morreu como fez todos pensarem. Eu achei  que estava ficando louco, achei que tinha perdido minha sanidade, mas não.

TERESA: – Meu Deus, Enrique! – Exclama boquiaberta.

ENRIQUE: – Mas eu queria saber o motivo dele ter mantido, enganado todo mundo de uma forma tão verdadeira.

DOLORES: – Ele só queria protegê-lo, Enrique. – Diz se aproximando dos dois.

TERESA: – Então é verdade, e a senhora sábia mãe?

DOLORES: – No começo não, mas depois ele me procurou e também  fiquei assustada e enraivecida  com ele, mas ele me garantiu que fez isso para poder reunir provas com quem tentou fazer isso com ele e com quem te colocou na cadeia, Enrique.

ENRIQUE: – Então ele sabia mesmo quem foi que mandou plantar aquelas drogas nas minhas coisas.

DOLORES: – Você tem que perdoá-lo, Enrique.

Enrique deixa a xícara de café na mesa de centro e se levanta, ele segue até a janela.

ENRIQUE: – Eu não sei. Ele sabia quem me incminou daquela maneira e não  fez nada, absolutamente nada para me tirar daquele lugar. – Diz Enrique já com os  olhos marejados.


CENA 12: Maré Verde, Casa de Estefano, Escritório, Interior, Manhã 

A campainha toca e a empregada segue rapidamente para atender. Um homem charmoso entra, é Eugênio.

EUGÊNIO: – O senhor Estefano?

EMPREGADA: – Está no escritório a sua espera.

Eugênio se dirige para o escritório. Rebeca desce pela escada e estranha aquele homem.

REBECA: – Estranho, nunca o vi por aqui. – Diz seguindo para a cozinha.

Estefano fuma um charuto quando Eugênio entra, ele então se levanta e deixa o charuto. Estefano cumprimenta Eugênio com um aperto de mão.

ESTEFANO: – Já era hora de você vir. Trouxe o que eu pedi?

EUGÊNIO: – Sim, está tudo  aqui. – Diz retirando um pen drive do bolso  do blazer.

ESTEFANO: – Sabia que poderia contar com você. E sobre aquele outro assunto, não deixe que Soraia o veja, tem que ser tudo por um belíssimo acaso.

EUGÊNIO: – Será como o senhor diz.

ESTEFANO: – Agora vamos ver o que essa namorado da minha filha deve esconder. – Diz se encaminhando para sua mesa de trabalho.


CENA 13: Maré Verde, Edifício Samir, Apartamento de Igor, Quarto, Interior, Manhã 

Ariadna está enrolada apenas em um lençol encostada  sua cabeça no peito de Igor.

ARIADNA: – E você já se esqueceu de toda aquela história que me contou? – Pergunta levantando o olhar.

IGOR: – Não me esqueci, não tem como esquecer de tudo o que eu fiz.

ARIADNA: – Você não tem medo de que essa menina tenha crescido e descubra tudo?

IGOR: – É o que eu mais temo, pois não é só minha cabeça que está envolvida nisso tudo.


Flashback

Maré Verde, 1997

A chuva está forte, o trânsito da cidade lento. De repente as luzes dos postes se apagam e as pessoas dentro dos veículos veem um monte de sombras passando. Um casal pega a filha que está no  banco traseiro e a abraça.

RENATO: – Eu vou proteger vocês duas, não importa o que aconteça.

INGRID: – Você acha que tudo isso é obra dele?

RENATO: – Pode ser que sim.

De repente batidas no vidro do carro do casal são dadas, Renato retira a arma do porta luvas e aponta para o vidro e dispara enquanto Ingrid cobre os olhos da filha pequena. O homem cai morto do lado de fora do carro.

HOMENS (Gritando): – Eles estão alí.

Renato tenta arrancar com o carro, mas não tem como. Os homens do lado de fora disparam dezenas de vezes contra o veículo do casal.

Fim do Flashback 


IGOR: – Meu Deus, eu não fiz isso, eu não fiz. – Diz assustado.

CONTINUA

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