Linha do Tempo: Do Outro Lado do Oceano

Dou mais um salto nessa linha que por incrível que pareça, suporta o peso de minha mente, não reclama, não arrebenta, segue firme, então lá  vou eu abrir as portas da memória, as portas de algo que marcou meu ser cambaleante de lembranças sempre transcritas para um papel que se tornou rasurado, amassado ou molhado por lágrimas que insistem em cair enquanto me deleito no mar de lembranças.

O sol havia acabado de dar as caras, e como sempre vinha forte, majestoso, não dava lugar para as nuvens que tentavam cobrir seu espetáculo, sensurar sua nudez magnífica, que há tempos, nós seres humanos vemos ao olhar para cima. Comecei a caminhar pela pequena Vila em formação perto de um mar encantador que poderia muito bem ser abrigo de seres ‘diferentes’, mas quem ousava descobrir? Ninguém, pois era uma época em que muitos navegavam com suas imponentes caravelas, cortando grandes oceanos, explorando águas desconhecidas, – e se você por acaso quiser saber como isso flutua, então não venha falar comigo, pois sou apenas engenheiro de histórias, arquiteto de textos que eram apenas imaginação- mas não conseguem mergulhar nas águas do oceano e ver se a imaginação caminhou pela linha da verdade. Algumas pessoas não me conheciam alí,  então me olhavam torto, e eu não ligava, pois era normal tal desconfiança,  talvez se perguntassem como uma pessoa como eu, travestido de uma classe que nunca pensei pertencer estaria fazendo naquele local? Claro, se perguntassem diretamente a mim, eu diria que estava em busca de prazer, mas não prazeres da carne, pois isso não era minha prioridade, porém se ele resolvesse aparecer, quem seria eu para recusar meus instintos até então desconhecidos não só por mim, mas por todo ‘doutorzinho’ que levasse boa parte de sua vida pesquisando sobre isso, mas quem sou eu para dizer alguma coisa, aquele que passou Boa parte de sua sina a desenvolver seus amores, transformando cada memória em poemas ou em incompletas histórias.

Meus passos me levaram até a praia totalmente intocável, então me sentei na areia e peguei meus fiéis companheiros, o tinteiro e a pena, mas quando molhei a ponta da pena na tinta, vi o aproximar de três pessoas, então comecei a observa-los e constatei que queriam ficar sozinhos como eu, privando de preocupações que só serviriam para os cabelos brancos aparecerem antes do previsto. Ninguém me viu alí, foi o que eu pensei e estava certo disso, a senhora mais velha observava os dois jovens de perto,  um rapaz e uma moça que se tocavam com timidez, com certeza com medo do olhar daquela que parecia ser um tipo de cuidadora, daquelas que os pais ‘puritanos’ da época tratavam de arrumar assim que a filha começasse a conhecer outros jardins. A pedra ao meu lado servia como bom apoio tanto para o tinteiro quanto para o meu braço que ficou dormente, tratei de acordá-lo enquanto observava os dois jovens molharem os pés na água do mar, então quando abaixei a cabeça a deslumbrar meu amigo, o papel, senti o peso de um olhar, mas não era tão pesado, era doce, calmo e ao mesmo tempo selvagem, não quis espiar e saber quem era portador de tal ‘magia’ nos olhos e comecei a montar um novo espetáculo,  pelo menos para mim.

Já estou perdido há milhões de léguas do meu eu

Talvez ele tenha ficado do outro lado do oceano a fazer companhia para o seu.

Não imaginei que teria coragem para deixar seu hábitat, sua cela 

E viria a estar comigo no desconhecido

Que iria trazer o meu que para mim parecia perdido.

Chegou, mas não bateu na porta antes de entrar 

Já tinha a confiança desse coração nas mãos

Possuía a chave para esse nosso belíssimo sonhar.

Como me lembro de sua respiração acelerada

Da cama desarrumada e com seu cheiro de Rosa naturalmente perfumada.

Pode vir, chegue mais perto e toque aquilo que lhe dá prazer

Pegue para você o que lhe faz viver

Mas não vá de novo sem se despedir

Deixe seu lenço Branco antes de sair

A desculpa perfeita para eu lhe incomodar

E quem sabe em uma nova viagem embarcar.

Quando prestei atenção ao meu redor, vi algumas nuvens de chuva se aproximarem pelo mar, pareciam cavalgar em cavalos, brincavam em sua casa, o céu. Saí de onde estava, e retornei pelo caminho que fiz para chegar até alí e no caminho encontrei um lenço branco preso em um galho de árvore, o vento que soprou lhe trouxe até o meu nariz, então pude sentir o cheiro de rosas, então sorri.

– Está aqui, tenho certeza. – Afirmei não me contendo e sentindo mais um pouco o delicioso aroma do lenço, um pedaço de pano de algodão que me trouxe lembranças que com certeza precisavam serem ‘requentadas’ no fogo do desejo.

Segui depressa para minha morada, e mesmo não conhecendo muitas pessoas por aquela vila, deixei a porta aberta e segui para o banho antes que a chuva chegasse. Meus amigos ficaram sobre a pequena mesa de madeira maciça enquanto eu me banhava, e assim que terminei meu banho, me enrolei em uma toalha e segui para o meu pequeno e aconchegante quarto, e fiquei estático ao notar a presença do poema personificado deitado em minha cama, sorri como uma criança que acabava de ganhar um pião novo.

– Realmente teve coragem de vir até aqui. – Balbuciei com o coração acelerado, e poderia morrer que morreria feliz por ter a oportunidade de ver minha fonte de inspiração antes de seguir para quem sabe, o céu.

Me devolveu um sorriso que desmontou todo meu ser no exato segundo, então não resisti mais e fiz companhia para a graça daquela pessoa inesquecível, aquela que me possuía com os olhos e irradiava volúpia pelos poros.

Anúncios

4 comentários sobre “Linha do Tempo: Do Outro Lado do Oceano

  1. Minha nossa! A linha do tempo está perfeita! é sempre tão bom ler e viajar no tempo com você! A narrativa esta excelente, conseguiu me transportar pra longe, pra perto do mar, consegui ver a praia, consegui imaginar o vilarejo, consegui sentir a história, consegui estar lá na casa e adentrar na casa com a porta aberta 🙂 🙂 🙂 Se eu amei…. amei…. E o poema no meio???? Que maravilhoso, estou muito surpreso, está lindo, de alguma forma fez todo o sentido pra mim, não consigo expressar o quanto amei esse poema no meio do texto, migo está divino…. Adorei a introdução e adorando o jeito que você tá narrando, deixando bem sugestivo ❤ ❤ ❤ e senti isso como uma continuação fora da cronologia daquele sentimental, quando li a cama desarrumada, imediatamente lembrei dos dois encontros que ocorram, nesse ponto da linha do tempo e no primeiro texto da linha do tempo, meio que conectando os três, fazendo parecer ser a mesma alma, digamos assim, e gostei muito por ver mais um relato desses encontros maravilhosos entre esses dois, espero que reencontre ele novamente, meu querido! ❤ ❤ ❤ e baguncem a cama hehehehe !

      1. Sim, também percebi mais ou menos essa época….. mas migo me responde, aquele sentimental tem relação com essa persona da narrativa da linha do tempo?????? Eu vou adorar ir mais longe! ❤ ❤ ❤

Então, o que você achou? Deixe sua resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s