A Jogada: Capítulo 1


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CENA 1: Maré Verde, Bairro São Jorge, Casa de Teresa, Quarto, Interior, Manhã 

Uma linda mulher termina de se vestir enquanto está de frente para o espelho, e no vidro é notável a foto de um homem sorridente, a mulher sorri e encosta os lábios na foto, desejando em pensamento que seu amado estivesse alí com ela. A cortina branca começa a balançar devido ao Vento que sopra ligeiramente, ela se encaminha até a janela, e depois de fechar retorna com um semblante de preocupação e torna a olhar para a foto pregada no espelho.

TERESA: – Que você não perca esse seu bom coração após sair desse lugar horrível, você nunca cometeu crime algum, tenho certeza disso. – Afirma ao se lembrar do dia em que o namorado foi preso acusado de ser traficante de drogas.

A porta do quarto então se abre, e sua mãe, Dolores, entra sorridente, mas seu sorriso desaparece assim que vê a filha preocupada.

DOLORES: – Ele sai hoje, minha filha. Você virá comigo?

Teresa se vira, já com os cabelos amarrados, e olha para a mãe, que abraça a filha.

TERESA: –  Vou sim, mãe. O Enrique precisa saber que estou do lado dele sempre, e que nada me fará mais feliz que vê-lo deixar aquele lugar horrível. – Responde no abraço de Dolores, que tenta acalmar o coração de sua querida filha.

DOLORES: – A vida foi injusta demais com o Enrique, mas Deus vai ajudar ele a se manter de pé e seguir em frente, filha. – Diz antes de beijar a testa de Teresa, que torce para que Deus realmente ajude seu amado.

Teresa deixa o calor do abraço de sua mãe, e se senta em sua cama, pensativa, despertando a curiosidade de sua mãe.

DOLORES: – No que você tanto pensa, Teresa?

Teresa levanta seu olhar, que até então miravam o chão, e passa a olhar para a face de sua mãe.

TERESA: – Ele deve estar revoltado com tudo, não é mesmo, mãe!?

Dolores se senta ao lado da filha na beirada da cama.

DOLORES: – E quem não ficaria, filha? O Enrique nunca mexeu com droga ou algo ilícito, mas acabou indo preso, isso revolta até mesmo que não convive com ele.

TERESA: – A senhora sabe quem possa ter feito isso com ele, mãe? – Questiona pensando que Enrique sempre disse que há alguém por trás de sua prisão, mas ela nunca perguntou para sua mãe se ela sabia de algo, até agora.

Dolores se levanta do lado da filha assim que ouve sua pergunta, ela não olha para Teresa, que por sua vez espera por uma resposta.

DOLORES: – Infelizmente não sei de nada, filha. – Responde tentando não olhar para o rosto de Teresa, que saberia de sua mentira.  – Se eu soubesse de algo, o Enrique não teria ido para aquele lugar.


CENA 2: Maré Verde, Penitenciária Masculina, Interior, Manhã 

Um agente penitenciário observa o movimentar dos presos no pátio, principalmente um deles que está mais afastado dos outros, sentado em um banco de concreto. O agente segue devagar até esse prisioneiro, que continua indiferente a aproximação dele. Lucas,  o agente se senta ao lado de Enrique.

LUCAS: – Muitos estariam felizes em seu lugar, Enrique. – Comenta o agente se mostrando um pouco atípico.

Enrique olha para Lucas, que olha para o muro alto à sua frente.

ENRIQUE: – Feliz? Me diz se vai dar pra ser feliz depois do que fui acusado. O mundo lá fora que já não era bom pra mim, agora ficará pior ainda.

LUCAS: – Você pode contar comigo. Eu sei que você não é má pessoa, por isso estou disposto a ajudar.

ENRIQUE: – Desculpa, mas eu acho que ninguém pode me ajudar de verdade. Meus problemas são gigantescos demais, e com a raiva que estou, creio que de fato vou me tornar um criminoso.

LUCAS: – Você vai superar tudo isso é seguirá em frente, não vai ser fácil, mas você vai, e não queira voltar para esse lugar, pois de uma forma ou de outra aqui é pior do que lá fora. – Diz estendendo a mão para Enrique. – E pode contar  comigo mesmo, rapaz.

Enrique segura na mão de Lucas, que se levanta em seguida e volta para perto de seus companheiros. Enrique olha para o muro da penitenciária e se lembra do seu pai, Eros.

ENRIQUE: – Eu não vou desistir de encontrar a verdade, meu pai, prometo ao senhor que logo vou fazer o que tem de ser feito.


CENA 3: Maré Verde, Centro, Casa de Estefano, Sala, Interior, Manhã 

Estefano desce pela  escada sempre carregando em sua mão esquerda, um tablet de última geração, está sorridente e até cumprimenta a empregada que limpa os móveis da luxuosa sala. Assim que termina os degraus, Estefano olha para o lado da cozinha e vê sua filha mais nova vindo em sua direção.

ESTEFANO: – Bom dia, filha!

Soraia encara o pai com um leve desprezo no olhar e tenta adivinhar o que seu pai pode ter feito pra estar sorrindo de maneira tão constante.

SORAIA: – Com certeza estragou a vida de mais uma pessoa. Afirma antes de começar a subir pelos degraus, seu pai a faz parar.

ESTEFANO: – Impressionante como você gosta de acabar com minha manhã, filha, igualzinho a sua mãe.

SORAIA: – Ainda bem que minha mãe não está mais entre nós pra ver suas maldades crescerem ainda mais, e logo eu também vou sair daqui pra nunca mais.

Soraia termina de subir pela escada enquanto é encarada com raiva por Estefano.

ESTEFANO (Pensando): – Tenho que colocar essa garota nos eixos. O que os outros podem pensar de mim? Que não sou um bom pai, que não tenho controle sobre minha própria família.

Estefano ouve a campainha, a empregada passa rapidamente por ele e  atende a porta. Igor entra  sem muita cerimônia. A empregada deixa os dois a sós.

ESTEFANO: – Ainda bem que chegou, pois só você pode alegrar minha mãe hoje. Diga, deu tudo certo, então? Conseguiram invalidar o habeas Corpus daquele filho de Rato? – Questiona assim que Igor se aproxima.

IGOR: – Eu fiz tudo o que eu pude, senhor, mas nada foi suficiente. O juiz estava decidido em dar liberdade para o filho do Eros.

Estefano se aproxima um pouco mais de Igor, que teme. Estefano ajeita a gravata de seu protegido.

ESTEFANO: – Você com certeza não fez o suficiente, não é mesmo? Deveria ter insistido mais, e você sabe o que quero dizer com isso.

IGOR: – Sim, senhor, eu não fiz o suficiente. – Afirma não sendo capaz  de contrariar quem controla sua vida.

Estefano sai de perto de Igor e pára próximo da janela.

ESTEFANO: – Só existe uma maneira de você não sofrer as consequências por esse erro tolo. – Afirma voltando seu olhar para Igor. – Mantenha esse rapaz bem ocupado, e no menor sinal de que ele vai dizer o pouco que sabe, você sabe o que fazer.


CENA 4: Maré Verde, Bairro São Jorge, Casa de Teresa, Exterior, Manhã 

Teresa e sua mãe, Dolores saem de casa. Teresa aparenta estar um pouco mais calma do que quando conversava com a mãe, agora só pensa em rever seu grande amor, logo um táxi se aproxima, e elas adentram o veículo.


CENA 5: Maré Verde, Edifício Samir, Hall, Interior, Manhã 

Igor sai de seu carro importado, e retira os óculos escuros, ele entrega a chave do veículo para o manobrista, que já o conhece. Igor entra no edifício onde aluga um apartamento, e segue direto para o elevador.

IGOR: – Se ele já me trata assim por conta de um erro bobo como esse, então não quero nem imaginar o que ele pode fazer comigo se descobrir que não fiz o que me pediu há 2o anos.

Em seu pensamento vem a imagem se um dia chuvoso, uma avenida cheia de veículos parados.

IGOR: – Não, eu não posso pensar nisso agora.

Seu olhar se cruza com de uma mulher dentro do elevador, mulher essa que pisca para ele. Igor sorri ao constatar que a mulher realmente piscou para ele.


CENA 6: Maré Verde, Penitenciária Masculina, Exterior, Manhã 

Teresa e Dolores saem do táxi e param próximas do portão da penitenciária, que se mantêm fechado. A jovem se mostra ansiosa.

TERESA: – Será que a gente se atrasou, mãe?

Dolores olha para o relógio de pulso e verifica a hora.

DOLORES: – Não, filha, a gente não se atrasou, fica calma.

TERESA: – Só ficarei mais calma quando eu estiver abraçada ao Enrique, mãe. Eu amo muito ele, e nunca vou deixar de estar ao lado dele.

O portão da penitenciária é aberto, mãe e filha esperam Enriqye sair, coisa que não demora. Enrique  recebe um abraço apertado de Teresa e fica feliz ao revê-la novamente.

ENRIQUE: – Eu achei que você não iria vir. – Confessa sentindo o doce perfume de sua namorada.

TERESA: – Eu jamais irei abandonar você, Enrique.  – Afirma olhando nos olhos verdes dele.

DOLORES: – Nem ela e nem eu vamos abandonar você, filho. – Diz sorridente. – Você vai superar tudo isso.

ENRIQUE: – Obrigado por vocês duas estarem aqui, de verdade. Por um momento achei que estaria realmente  sozinho daqui pra frente, pois afastei vocês de mim com minha amargura.

DOLORES: – Isso já passou, e entendemos sua decisão, mas agora é vida nova.

Os três se abraçam felizes por estarem dando início a uma nova fase em suas vidas.

TERESA: – Agora vamos pra casa, pois esse lugar não me faz bem.

Enrique abraça Teresa e a beija antes de seguirem para o táxi, o amor deles nada mudou, porém a vida fora do presídio reserva surpresas.


CENA 7: Maré Verde, Tarde, Porto de Amaral, interior, Manhã

Um carro preto luxuoso pára próximo do porto de Amaral, o motorista desce rapidamente e abre a porta traseira esquerda do veículo, então Estefano sai do carro. Um funcionário do porto  se aproxima dele.

FUNCIONÁRIO: – Veio ver tudo, chefe?

ESTEFANO: – Sim, tenho que ver de perto, ou algo desastroso pode acontecer.

FUNCIONÁRIO: – O Igor já está verificando.

ESTEFANO: – Isso é muito bom, pois mostra que ele está aprendendo tudo o que eu ensinei.

Estefano e o funcionário entram em uma pequena sala. Igor está próximo da janela com algumas bolsas pretas em cima da mesa, Estefano se aproxima dele.

ESTEFANO: – Está tudo certo?

Igor olha para Estefano.

IGOR: – Está tudo perfeito, senhor. Hoje mesmo já enviaremos da maneira mais discreta possível para a Europa.

ESTEFANO: – Espero que dessa vez os compradores certos recebam essa mercadoria, pois não posso me dar ao luxo de ter um prejuízo atrás do outro.

IGOR: – Eu prometo que o senhor não terá prejuízos dessa vez.

ESTEFANO: – Não promete aquilo que você não pode cumprir. – Pede batendo levemente no ombro de Igor.


CENA 8: Maré Verde, Bairro São Jorge, Casa de Teresa, Rua, Exterior, Noite

Alguns carros passam por um carro preto parado do outro lado da rua, de frente  para a casa de Teresa. O vidro do veículo  desce lentamente e é notável a presença de dois homens estranhos dentro do automóvel.

HOMEM 1: – Ficar de olho em morto é dureza, Pacheco.

HOMEM 2: – É sim, mas é o nosso serviço e não podemos falhar com o chefe, pois não é nada bonito o que acontece se houver falhas.


CENA 9: Maré Verde, Bairro São Jorge, Casa de Teresa, Cozinha, Interior, Noite

Dolores lava a louça do jantar, está toda sorridente por ver sua filha ao lado de Enrique novamente. Teresa conversa com Enrique sentados a mesa. Dolores pensa em Eros, o homem que ela sempre amou, mas que nunca revelou pra ninguém o que sentia por ele.

TERESA: – Precisa de ajuda, mãe?

DOLORES: – Não, filha, está tudo bem. Responde sorridente.  Agora  você tem é que aproveitar que o Enrique está aqui.

ENRIQUE: – E se Deus quiser nunca mais vou sair da presença de vocês. – Afirma antes de beijar Teresa. Ele então se levanta e beija o rosto de Dolores, que para ele sempre foi uma mãezona.

Enrique se afasta e fica próximo de Teresa, que o enche de beijos molhados, mas se assustam e param de se beijar ao verem Dolores desmaiar. Teresa corre desesperada até a mãe.

TERESA (Deseperada): – Mãe, mãe, fala comigo.

Teresa olha aflita para Enrique que pega Dolores no braço e a leva até o sofá da sala. Teresa liga rapidamente para o Socorro.


CENA 10: Maré Verde, Bairro São Jorge, Casa de Teresa, Exterior, Noite

A ambulância está parada próxima da casa de Teresa. Dolores é colocada dentro da ambulância e Teresa a acompanha.

ENRIQUE: – Logo estarei lá com você, Teresa. – Diz antes das portas traseira do veículo  se fechar.

Assim que a Ambulância sai, Enrique fica a espera de um táxi, que logo aparece, mas quando ele pensa em entrar, dois homens o abordam e encostam uma arma em sua cintura. Enrique é rendido e despensa o táxi,  os dois homens o levam para dentro do carro preto.


CENA 11: Maré Verde, Edifício Samir, Apartamento de Igor, Quarto, Interior, Noite 

Igor está deitado na cama olhando para o teto e em sua mão esquerda, o celular, que começa a tocar de maneira insistente, ele atende.

IGOR (Ao Telefone):  – Espero que tenha uma boa notícia.

HOMEM (Do outro lado da linha): – Conseguimos pegá-lo, chefe.

IGOR (Ao Telefone): – Então  traga ele até mim, o mais rápido possível. – Diz antes de encerrar a ligação.

Igor se levanta da cama e vai até o closet, e pega um terno todo Preto e se troca em tempo recorde.

IGOR: – O Estefano vai me agradecer de joelhos após eu terminar esse serviço. – Sorri de forma debochada enquanto se admira no espelho.

Ele segue até a pequena mesa ao lado  de sua cama e abre a primeira gaveta, na qual se depara com uma foto de uma pessoa, e rapidamente em sua memória vem a imagem da mulher na foto.

Flashback

Maré Verde, 1997

Igor abre a porta da casa com a chave reserva e entra com uma pequena menina, que está calada, mas que observa tudo com atenção. Quando Igor acende a lâmpada da sala,  uma mulher está parada próximo da escada.

MULHER: – Você realmente fez isso, filho. Você realmente foi capaz de fazer isso.

IGOR: – Eu não tive escolhas, mãe, eu não tive como fugir.

MULHER: – Como assim não teve escolhas? A Polícia está aí para quê?  Você quer continuar nessa vida. Quer continuar desgracando a vida dos outros, mas você vai fazer isso bem longe daqui.

IGOR: – Antes da senhora me mandar embora, eu preciso que cuide dela. – Diz apontando para a menina ao seu lado.

Fim do Flashback 

Igor amassa a foto que está em suas mãos, algumas lágrimas caem.

CONTINUA

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4 comentários sobre “A Jogada: Capítulo 1

  1. A escrita permanece ótima e essa trama promete ser mais obscura do que as anteriores que acompanhei. Enrique e Igor se destacam nessa estréia de “A Jogada”. Muitos mistérios rondam os personagens e eu estou louco para descobri-los. Parabéns pela estréia, Jair! 😉

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