Linha do Tempo: Memórias de Algumas Noites


Essa adorável linha do tempo, não sei se é certo dizer que é adorável, pois  nos trouxe muitas coisas ruins também, principalmente para mim, mas não choro as consequências, não derramo  o arrependimento, pois não vale  a pena discutir com algo ou por algo que não vai ser mudado, e sim vale  a pena ‘brigar’, ‘discutir’ para que não volte a acontecer.

Não me lembro da data exatamente, pois a memória me trai com constância, mas sei que é algo longínquo, não lembro se havia ou não havia lua naquela noite, só me lembro de estar sentado a mesa de uma taverna observando todas as pessoas que bebiam, que passavam por alí, e de cinco em cinco minutos passava um rapazinho meio maltrapilho a me oferecer uma bebida, e eu recusava, claro, pois já estava bêbado de amor, minha alma já estava embriagada, não era necessário embriagar o resto de mim.

As pessoas continuavam a passar por mim, até o mesmo o rapazinho maltrapilho começou a me encarar, talvez por eu estar a chorar, um tempo em que choro de homem era significado de fracasso, de não haver verdadeira hombridade, mas nada mudou não é mesmo? Me levantei e segui em direção ao balcão de atendimento do botequim e o dono com cara de poucos amigos encarou-me com seus olhos  de uma escuridão profunda.

– O que deseja, sinhozinho? – Perguntou o homem mal encarado antes de sorrir revelando alguns de seus  dentes podres.

– Apenas uma pena,  um tinteiro, e um papel. – Lhe respondi com ar de grande satisfação. Virei meu rosto para o rapazinho que também virou sua face para o outro lado querendo me fazer acreditar que não me analisava.

O homem mal encarado retornou com o que eu pedi, mas antes de dar em minhas mãos o que eu necessitava, titubeou parecendo querer entender o que eu exatamente queria fazer.

– O que o sinhozinho pretende? – Questionou ele já com os neurônios fritos na tentativa de adivinhar antes de eu lhe responder.

– Pretendo montar um espetáculo, no qual, as letras vão dançar no papel após eu vestí-las com a tinta, pois não podem dançar nuas. – Respondi abrindo um sorriso em seguida antes de pegar o que eu precisava e me dirigir até a mesa no qual estava antes da doçura de ser poeta bater a porta de meu interior querendo entrar mais uma vez.

Sentei à mesa e fiquei a observar mais um pouco as pessoas que alí frequentavam, não estava em posição de julgar ninguém, nem mesmo ousaria desperdiçar papel fazendo isso. Meus olhos aterrissaram no papel amarelado, mas logo eles  ousaram pular para o tinteiro, e inquietos se encontraram com o do rapazinho que me olhava com curiosidade, com certeza me achava um louco, mas a opinião alheia de nada me serviria naquele momento, então controlei meu olhar. Molhei a ponta da pena na tinta e comecei a abrir a porta para a doçura de ser poeta entrar de uma vez, pois não aguentava mais ficar sozinho, como um deserto sem oásis qualquer.

Sei que estás tão perto de mim

Sei que me olhas assim

Também sei que teus olhos só brilham para mim

Eu sei, sei que olhas para mim no momento 

Finges felicidade por causa da demora do tempo

Mas conta os minutos e espera o vento

Que te carregará até meus braços

E somente vamos adormecer depois que nossos corpos se falarem 

Depois que nossos íntimos se amarem

O dia vai amanhecer

Para o mesmo ciclo renascer.

Agora já chovia, não havia muitas almas vivas naquela taverna, ainda bem que o sujeito mal encarado não perturbou, dobrei a Folha com muito cuidado e coloquei em meu bolso da camisa, então me levantei e segui para perto da escada que ficava  ao lado do balcão. O primeiro  degrau pareceu gritar, assim como o segundo e  o outros em diante, até eu chegar no meu destino daquela noite. Abri a porta com cautela e a fechei em seguida, era possível ouvir o barulho da chuva no telhado, logo deitei na cama ,até bem conservada para um local tão mal cuidado, depois de me despir por completo, esperava pela noite de mais uma despedida que realmente nunca acontecia. Quando a porta se abriu, retirei meu poema arremessado no papel, e ouvi um caminhar lento até próximo da cama, e fiquei a esperar até o velho papel ser arrancado de minhas mãos, e em troca ganhei outros prazeres.

Anúncios

9 comentários sobre “Linha do Tempo: Memórias de Algumas Noites

  1. Eitaaaaaa que texto excelente! Jay, que texto gostoso de ler, tipo a narrativa que você fez ficou perfeita, nunca tinha lido algo assim seu, você escreve bem e você sabe, mas esse ficou perfeito, adorei as nuances e ritmo. Você tava me falando sobre isso e posso dizer, ficou demais, adorei a ideia e ficou o máximo. E os versos no meio são melhores que eu li até aqui, de tudo o que escreveu, eu não sei, mas esses versos ficaram bons demais, eu senti eles e cada verso me trouxe a mente algo tão bom, nossa foi muito bom de ler. ❤ ❤ ❤ ❤ ❤ ❤ Já quero viajar nessa sua linha do tempo, bom demais…. e o final foi muito legal 🙂 🙂

Então, o que você achou? Deixe sua resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s